Márcio Cardoso
Sábado, Abril 07, 2012
O AMOR QUE RESSUSCITA!
Falar que a ressurreição de Jesus demonstra o seu poder sobre a morte é lugar comum! É óbvio e até mais fácil falar. Mas existem algumas sutilezas no episódio que me surpreendem.
Jesus não usou a ressurreição como espetáculo para conseguir adeptos. Ele poderia ter se ocupado na implantação em massa do seu reino. O Jesus ressurreto iria ganhar o mundo. Mas não! Quando ressuscita, Jesus aparece a alguns amigos em suas casas, na praia, no jardim, na estrada para Emaús. Curioso isso! Jesus não aparece na praça ou na sinagoga. Para alguns televangelistas, Jesus perdeu A oportunidade de ganhar a guerra entre as religiões! Mas o Jesus ressurreto não quer ser sensacionalista, não quer usar a ressurreição como argumento incontestável e irresistível.
O Jesus ressurreto não está preocupado com uma agenda para ganhar o mundo, ele está interessado no indivíduo, mesmo que isso lhe custe o anúncio que sua ressurreição foi uma fraude. Jesus não estava preocupado se as pessoas iriam crer que ele ressuscitou ou não. Se fosse assim, ele teria tido alguns cuidados! Mesmo que isso favoreça o anúncio dos soldados de que seu corpo havia sido roubado, não interessa: Jesus ressuscita para cuidar dos seus amigos. E a partir de então, o anúncio da ressurreição vai depender do testemunho desses anônimos. Arriscado!
Penso que uma grande marca que ficou no coração daqueles discípulos não foi “como ele é poderoso!”, mas “como ele nos ama!”. Quando o Jesus ressurreto escolhe aparecer aos amigos, ao invés de se manifestar ao mundo, Jesus ressuscita os sonhos dos discípulos, ressuscita a esperança, ressuscita a fé, ressuscita a dignidade e a estima.
Em toda a sua vida Jesus foi discreto; do nascimento à entrada triunfal; nas suas curas e milagres, da morte à ressurreição. “Mesmo sendo Deus, não teve por usurpação o ser igual a Deus, mas antes se esvaziou de si mesmo” (Filpenses 2). Em nenhum momento Jesus foi movido por poder, mas sempre por amor.
E sua biografia termina assim: Jesus ressuscita para amar, e esse amor pode ressuscitar aquilo que está mais adormecido em nós!
Naquele que amou até o fim,
Márcio Cardoso
Terça-feira, Abril 03, 2012
Minhas invenções
Eu sou todas as minhas invenções.
Tudo o que crio e o que penso
tem o meu desejo e suor.
Eu sou as minhas dúvidas
e as minhas verdades
os meus credos e preconceitos.
As minhas angústias, soluços, calafrio
os meus bosques misteriosos,
os meus rios turvos
os outonos boa parte do ano,
tudo sou eu.
Eu sou a minha metafísica e a minha imanência
o meu medo da morte e a minha reinvenção.
Eu sou os meus amores e paixões.
Eu sou a doença que inventei
os remédios que tomei
os livros que li.
Eu sou a invenção de mim e a sua projeção.
Minha visão de mundo eu mesmo fiz
com o que recolhi do Universo.
E só recolhi do Universo
aquilo que já era eu.
Eu sou a fome de mim
a liberdade e a reticência...
Está tudo em casa!
Márcio Cardoso
Domingo, Abril 01, 2012
Dilatação
Eu sou tantos dentro de mim que quase me explodo
Eu só me caibo
Graças ao meu coeficiente de dilatação
Mesmo assim, quando eu me dilato,
Uma outra possibilidade de mim se impõe
Quando o meu corpo esfria
Este quase eu, que se esboçava,
Para não escapar pelos meus poros
Se divide entre os outros
Alterando a sua substância
E nessa dinâmica
Cada vez que eu me divido eu me multiplico.
Márcio Cardoso
Quarta-feira, Março 28, 2012
O Escrevente
Eu sou quem me habita
E também quem é habitado
Eu sou aquele que me observa
E também quem é observado
Pelo lado de dentro e pelo lado de fora
Eu sou o que tem ideias mais nobres
E aquele que pensa vilezas
Eu sou aquele que censurou uma ação
E aquele que permitiu o indesejado
Eu sou todo humano
Eu sou aquele que ainda não virou palavras
Os pensamentos que nem sequer ousei dar linguagem
Eu sou essa entidade
E o que escreve a seu respeito.
Terça-feira, Março 27, 2012
Observador
Não gosto de ser vigiado
Esse sujeito, que sou eu mesmo,
Passa o dia inteiro me observando
Como que fiscalizando minhas ações
Condenando meus pecados
E censurando os meus arroubos
Quando olho para ele me desconcentro
Quando flagro o seu olhar ele some
Ele vive de me ver, ele se alimenta de mim
E eu dele.
Márcio Cardoso
Segunda-feira, Março 26, 2012
Salvos pela poesia!
O que seria de nós sem o socorro dos poetas? O poeta canta o rotineiro e para nós tem o frescor de inédito. Com o poeta vamos de mãos dadas ao mundo familiar e parece que estamos ali pela primeira vez. Ficamos embasbacados perguntando “como não vimos isso antes”? As experiências vulgares do dia a dia, ridículas, ingênuas e bobas, quando ditas pelo poeta têm poder de Vida!
O poeta salva as palavras gastas pelo uso e tempo; dá novo sentido às palavras maltratadas. Ele tem habilidade de fazer uma palavra significar o seu antônimo! A licença poética foi inventada por causa do poeta: uma maneira que encontraram de conviver com a sua liberdade. O poeta cria neologismo porque o seu vocabulário é maior do que a linguagem.
Levamos um verdadeiro drible se lemos apenas as letras do poeta. Quando ele diz uma coisa pode estar querendo dizer outra coisa – este é o conselho de Gilberto Gil em “Metáfora”:
Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível
Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível
Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudonada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível
Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora
A poesia não são palavras, são imagens. A poesia não é a letra, mas as entreletras, não são as vozes são as entrevozes; não é o som, é a série harmônica.
Fazendo amor com as palavras, o poeta desenha uma cena, uma sensação, um aroma, uma textura. Com as palavras o poeta cria uma esperança e lembra as nossas saudades. O poeta usa as palavras para dizer a Palavra que nunca foi dita; e ele não diz, apenas sugere, é já é muito bom! A sua estética nos faz sofrer de beleza; e, apenas vislumbrar aquilo para que aponta, já nos faz suspirar!
Deus é poeta! Livre de normas, instituições, leis e teologia, Deus solta o verbo. Ou melhor: encarna o verbo. Sua poesia é gente – Jesus – tão maravilhosamente inclassificável! E quando Jesus fala (preste muita atenção!) pode estar falando do avesso, pode estar sugerindo outra coisa. Certamente, não está sugerindo um vocabulário para virar doutrinas, rezas, jargões ou palavras mágicas. Jesus está sugerindo mundos, cenas e imagens. Ele não quer sua voz poética presa num papel, impressa e lida; mas livre, ecoando, reverberando, vibrando em nosso corpo.
Jesus nos socorre pela beleza e não pela letra; através das perguntas e não das respostas; Jesus nos redime através de parábolas e não de dogmas; Jesus salva a nossa existência usando trocadilhos e não fórmulas; Jesus nos lembra do essencial usando metáforas e não doutrinas.
O que nos redime não é a apreensão da verdade absoluta (quem conseguirá?), mas sim o Verbo Encarnado. Em Jesus a teologia é aberta, é beleza, assombro e poesia.
ESTRANHO ÍNTIMO MEU
Experimentar Deus é algo um tanto complexo. Como que alguém pode interagir com o Eterno Mistério? Como ser interlocutor do Invisível, daquele que nos escapa às palavras, daquele que está para além de nossas ideias ao seu respeito? Com que Deus nos encontramos quando oramos? Nós nos encontramos com Deus ou com nossas representações de Deus?
Fico admirado com a “intimidade” melosa de alguns religiosos com o seu deus, que para mim se assemelha mais a uma blasfêmia. Chega-se diante de um Deus que se conhece a priori. Chega-se diante de um Deus que já foi formatado, sistematizado, categorizado, como se Deus fosse um fenômeno que pudéssemos capturar. Por isso em alguns meios religiosos, a apreensão da “Verdade” é idolatrada!
A grande confiança está nas representações que se tem de Deus. Os encontros com Deus são ancorados nas ideias que se tem ao seu respeito, e assim acaba-se chegando diante de um ídolo. Sobre a parábola do fariseu e publicano, Rubem Alves diz “o fariseu ajoelhou-se diante do Deus verdadeiro e orou a um ídolo. O publicano ajoelhou-se diante de um ídolo, e orou ao Deus verdadeiro”.
Qual o lugar das representações, das imagens de Deus? Qual o lugar da teologia? As ideias que temos a respeito de Deus são importantes para o diálogo entre nós; são símbolos e signos que viabilizam os relacionamentos. As representações que temos de Deus modelam a nossa moral e ética e desenham a nossa cosmovisão. Mas as nossas representações de Deus não são Deus. A nossa teologia é importante para a nós, mas ela não é Deus.
É óbvio que sempre teremos que lidar com imagens de Deus, e que elas sejam cada vez mais geradoras de humanidade. Dizer que Deus é o Mistério não deve cessar as nossas conversas. Lembro-me de Leonardo Boff quando diz que Deus não é o limite de nossa razão, mas o ilimitado de nossa razão. As imagens sobre Deus sempre teremos, no entanto, precisamos ser iconoclastas; as representações de Deus devem ser derrubadas vez por outra. Vez por outra precisamos suspender as nossas ideias sobre Deus, principalmente quando se fala em oração.
Penso que na oração, chegamos sempre diante do Estranho; daquele que eu não sei quem é. Eu chego sempre diante do Outro. Nós estamos diante do “Não sei!”, do Imponderável, como diz Jean-Yves Leloup, do “Nada do Tudo cuja Causa é Ele”.
Eu me simpatizo com a teologia de Gilberto Gil em sua canção “Se eu quiser falar com Deus”: Se eu quiser falar com Deus/ Tenho que me aventurar/ Tenho que subir aos céus/ Sem cordas pra segurar.
Penso que seja assim. Se eu quiser falar com Deus eu preciso derrubar as imagens de Deus, desvencilhar-me dessa confiança na ortodoxia tão cara aos fundamentalistas; soltar as cordas de uma piedade que “capturou” Deus como fenômeno. Eu preciso soltar a âncora vaidosa do tecnicismo, do pragmatismo, do cientificismo e do racionalismo. Em entrevista a Revista Cult, Mateus Nachtergaele disse algo que achei genial: “acreditar em Deus é matar Deus. Você não tem que acreditar naquilo que existe. O que é é. Ponto.” Para lembrar de Gianni Vattimo, eu preciso considerar frágil e débil minhas verdades sobre Deus.
Eu posso me permitir à aventura de adorar a Deus em espírito. “Em espírito” não é “em transe”. Não! “Em espírito” é como vento, como um pássaro selvagem que voa, voa livre de qualquer confiança em verdades.
Isso não nos lança num desespero? Sim, maravilhoso desespero e estranhamento, pois é um salto no escuro, é subir sem cordas para segurar, é velejar na contingência do oceano, é se aventurar nas profundezas do abismo. Mas e daí, se é Nele que “nós vivemos, nos movemos e existimos”? O nosso vazio, ânsia, busca acontecem em Deus, e não a parte de Deus.
Quem garante o Encontro não são minhas verdades a respeito de Deus, quem garante o encontro é a graça de Deus. O chão, o ar, o oceano, o abismo onde nos aventuramos em oração e adoração são a graça de Deus. O Encontro é possível porque o Sagrado, transparente a tudo e a todos, nos busca.
Terça-feira, Março 13, 2012
“Pois nele vivemos, nos movemos e existimos.”
Em muitos arraiais religiosos eu percebo com pesar um esforço olímpico para que Deus se faça presente, se manifeste, mostre a Sua glória, como se Deus estivesse na tangência da Terra esperando o momento para entrar em cena!
Deus não precisa ser invocado para se fazer presente. Deus a tudo e a todos envolve, em tudo e em todos transparece, de tudo e de todos emerge. Os teólogos dizem que é Ele é onipresente. Deus está totalmente envolvido com a história humana desde o seu nascedouro. Deus não está à parte do mundo, do lado de lá, distante. Convocar um Deus que é Todo-Presença é, no mínimo, contraditório.
Deus está conosco, seu nome é Emanuel. Sua presença se dá de forma modesta, velada e silenciosa. Como o ar que respiramos sem nos darmos conta, Deus é o nosso fôlego; como o sol, que desde o horizonte clareia o meu quarto sem que eu esteja olhando para ele, Deus me renova; como a raiz que nutre a árvore, assim é Deus - a seiva da vida. A presença de Deus é a causa da nossa existência; só vivemos porque vivemos Nele.
Orar é compartilhar com Deus, é um desabafo e não uma técnica. Não devo confiar mais em minha oração do que em Deus. Não é porque orei “corretamente” que Deus vai fazer alguma coisa. Deus não se põe em movimento por causa da oração. Deus é pura gratuidade!
Como eu vou orar sabendo que Deus não se “move” por causa da oração? Como serão minhas palavras em oração, sabendo que Deus não está “fora” para que tenha que intervir, mas que está envolvido até ao pescoço com a minha história? Como serão os termos de minha oração sabendo que eu vivo, que eu me movo e existo em Deus?
Oração de invocação quer chamar mais a minha atenção do que a atenção de Deus. Quando eu digo “vem, e visita o seu povo”, na verdade quero convocar os meus sentidos à presença de Deus: “vem, minha alma, abre os seus olhos para Deus, ouça o que Ele diz, perceba a sua presença!”. Porque na verdade não sou eu que estou esperando algo de Deus; mas é Deus que espera algo de mim. A pergunta não é minha - “onde está Deus?”, mas a pergunta é de Deus - “onde está você? Onde está o seu irmão?” (Gênesis 3,9; 4.9).
Não sou eu que invoco a Deus; é Deus que me invoca para eu dar conta de minha existência e cuidar do meu semelhante! Que vocação nobre e cheia de significado!
Márcio Cardoso.
Quinta-feira, Fevereiro 16, 2012
MÁSCARA, QUEM NÃO TEM?
O uso de máscaras não é uma prática exclusiva no período do carnaval. Todos nós usamos máscaras o ano inteiro. Quero dizer: dependendo dos momentos e ambientes, temos maneiras diferentes de nos comportar. Usar máscaras é uma prática comum daquele que aprendeu a polidez. Meu comportamento numa cerimônia de casamento é um, meu comportamento em casa é outro completamente diferente; minha postura num velório não é a mesma da minha postura num aniversário. Não, isso não é esquizofrenia, mas sim polidez.
O problema é quando eu uso uma máscara não porque o ambiente me sugere um comportamento, mas porque eu quero de alguma maneira tirar vantagens. Uma coisa, por exemplo, é usar a “máscara” para um ambiente do trabalho; outra coisa é usar, no ambiente do trabalho, uma máscara para disputas de poderes e jogos políticos. Uma coisa é usar a máscara “ideal” num ambiente de negócios, outra coisa bem diferente é usar uma máscara para trapacear numa negociação. Uma coisa é usar uma “fantasia” para determinado baile, outra coisa é vender uma imagem fantasiosa para se dar bem.
Mas usar máscaras é também uma questão de sobrevivência e sanidade. Eu uso máscaras para não ferir aquilo que dói tanto em mim. Eu uso máscaras para esconder aquilo que acho feio. Eu uso máscaras porque não sei se o outro terá carinho por aquilo que eu sou. Eu uso máscaras porque minha intimidade é o que eu tenho de mais precioso. Isso é compreensível e demasiado humano!
Só os amigos e amantes conhecem um pouco mais do segredo por trás das máscaras. E como é bom encontrar alguém e segredar o nosso rosto, a nossa fragilidade, a nossa feiúra, as nossas sombras! Como é bom, por um instante apenas, descolar-nos dos ornamentos de sobrevivência, e ficarmos à mercê do outro. Quem encontra um amigo pode contar com ele não apenas nos “carnavais” da vida, mas também em dias comuns e tristes, sem bailes, máscaras, música e serpentina.
Obviamente, em Deus podemos nos despir de todo aparato polido, político, religioso, alegórico e de sobrevivência, certos de que Ele nos entende, nos recebe e nos ama gratuitamente. Mas, como os braços e colo e ouvidos de Deus é o ser humano, será em mim e em você que as pessoas poderão encontrar esse amigo confidente.
Faça um amigo, cative alguém, se aproxime do outro. É lá que Deus quer encontrar você – no “carnaval” e nos dias ordinários! Sei que não será fácil encontrar esse amigo. Você vai se decepcionar muitas vezes, em outras vai se arrepender, mas vale à pena o risco! Quem sabe, na passarela da sobrevivência humana, você e um amigo, darão doces risadas das máscaras que usam!
Márcio Cardoso
Terça-feira, Dezembro 06, 2011
TAL E TANTO.
O quanto cabe numa história a dois?
Os fatos, os pensamentos
O feito, o por fazer
Linguagens, interpretações
Memórias e saudades
A eternidade e o agora
Quantos “eus” numa vida a dois!
Liberdade, autonomia
Egos, poder, narciso
Silêncio e espaço
Ambiguidades e um lar
Apreciação e sapos
Quanto amor na vida de dois?
Êxtase, epifania
Animal e humano
Cotidiano e eventos
Conquista e gratuidade
Duas crianças e uma fonte.
Quanta vida! Quanta história!
Tal e tanto!
Quantos “eus”! Quanto amor
Em nove anos!
(Dedicada à minha amada Déia em nosso aniversário de casamento!)
Quarta-feira, Novembro 30, 2011
TRANSGREDIR PARA SER HUMANO
Conversando com minha esposa a respeito da educação de nossos filhos, disse que gostaria que meus filhos, vez por outra, quebrassem minhas regras; que não queria filhos subservientes, assustados, com medo das fronteiras, obedientizinhos a tudo que lhes ordenasse. Até porque muitas de minhas ordens não são legítimas! Uma criança que segue minhas leis à risca não vai além de mim, já que em meus conselhos, obviamente, eu projeto todos os meus receios, preconceitos, previsões... enfim, a minha “experiência de vida”, e assim posso lhe furtar o direito de ter a sua própria experiência.
A minha leitura da poesia de Gênesis é que ali Deus abre os olhos do ser humano para a responsabilidade que ele passaria a ter se ultrapassasse o limite. A meu ver não foi uma mera proibição! Foi apenas uma advertência.
“Vocês terão grandes responsabilidades. Vão ter consciência de si. Vão comer do trabalho, vão saber a dor de criar filhos e perdê-los. Morrerão e saberão disso. Terão consciências dos sentimentos bons e ruins.
A curiosidade do ser humano foi tanta que ele imaginou como seria a vida depois da linha. Pagaram para ver! Comeram a Liberdade!
Muitos "batem" em Eva dizendo que ela foi a grande culpada pela queda da humanidade, afinal ela comeu do fruto primeiro. Mas eu, que fui salvo da perfeição assim como Eva, acredito que ela foi muito corajosa, transgressora, curiosa para ir além da fronteira do desconhecido, e assim pariu a Consciência Humana... (E, fiel como toda mulher, voltou para buscar Adão! Imagine se ela o deixa lá...?!) Eva nos colocou não num estado danado, mas para além dos limites de uma existência animal. Eva não deu à luz à Queda, Eva deu à luz a Humanidade! Eva deu à luz ao mundo complexo, interessante, inevitável, dinâmico que é a vida humana. Viva Eva! Salve Eva! Ave Eva!
Imagino que Deus ao perceber a curiosidade da mulher/homem e o seu ato de ir para além das fronteiras disse “bingo!”. Deus vibra com o inconformismo do homem porque foi para isto que Deus criou o homem: para liberdade, portanto com a capacidade de se inconformar, de se rebater, de subverter, de transgredir.
Não existe nenhum código, programa, software (nem bom, nem mal) para o homem cumprir. Isto é o que o homem tem de mais caro: a liberdade. Para usar a expressão de Rousseau – a “perfectibilidade”: a capacidade de se emancipar de todo código, de todo programa de computador natural; um potencial que o homem tem para se aperfeiçoar, reinventar, mudar, transformar.
Não estou convencido que Deus criou o homem com potencialidade para o Mal e para o Bem, senão poderíamos responsabilizar Deus de nossos atos, já que Ele previamente definiu dois programas. Acredito que Deus criou o homem para além do Bem e do Mal. A visão dicotômica Mal X Bem que se tem apequena demais a vida e é muito simplória. A vida é mais do que o Mal e o Bem. Aliás, o que é o Mal e o que é o Bem? O que pode ser bom para alguém pode ser mau para outra pessoa e vice-versa. Nesta dicotomia simplória Mal X Bem existem muitas outros matizes de valores, belezas, verdades, éticas que são contingentes, culturais e relativas.
O Existencialismo diz que a existência precede à essência; outros filósofos, como André Comte-Sponville, dizem que a essência se confunde com o existir. De um jeito ou de outro não há uma “natureza-software” a ser seguida. Acho que é por aí: eu sou enquanto vou vivendo; eu sou como eu vou vivendo. Ao contrário da ordem tradicional fundamentalista que diz que o homem nasce com um código mau e basta chegar à idade da razão para que a víbora que nele há se manifeste.
Deus criou o ser humano para aprender a liberdade.
Entendo que é na dialética filhos - pais que as crianças aprendem um código de ética combinado entre eles. De certa maneira, o meu “não” ao meu filho desperta nele curiosidade, imaginação, desejo de saber que tipo de experiência existe além dessa fronteira “não”. O fato de ele transgredir não é necessariamente mau, e às vezes o levará a descobrir novas possibilidades, reinvenções e a se enxergar superando um obstáculo.
Há transgressões para morte e há transgressões para a vida. Há quebras de códigos de ética que são extremamente nocivos, mas há subversões que geram vida, evolução, aperfeiçoamento. Sem subversão não há evolução, sem quebra de limites e paradigmas a história humana não teria chegado aonde chegou. Se os gênios, pensadores, artistas, utópicos, poetas não subvertessem os paradigmas, as normas, as leis o mundo seria a estagnação!
Jesus Cristo quebrou padrões, subverteu normas e etiquetas a favor da vida, reinterpretou a Lei “vocês ouviram assim, porém eu vos digo assim...” Jesus não se encaixava num esquema sócio-econômico, político ou religioso, Cristo não cumpria o programa do que se esperava de um Messias. O carpinteiro frustrou a máxima que “não poderia vir coisa boa de Nazaré”. Cristo transgrediu em favor da vida! Cristo subverteu para a humanidade seguir caminho!